A matemática macabra do 11 de setembro
por Marco Aurélio Weissheimer
O mundo se tornou um lugar mais seguro, dez anos depois dos atentados de
11 de setembro e da “guerra ao terror” promovida pelos Estados Unidos
para se vingar do ataque? A resposta de Washington ao ataque contra o
World Trade Center e o Pentágono engendrou duas novas guerras – no
Iraque e no Afeganistão – e uma contabilidade macabra. Para vingar as
mais de 2.900 vítimas do ataque, mais de 900 mil pessoas já teriam
perdido suas vidas até hoje. Os números são do site Unknown News,
que fornece uma estatística detalhada do número de mortos nas guerras
nos dois países, distinguindo vítimas civis de militares. A organização Iraq Body Count,
que usa uma metodologia diferente, tem uma estatística mais
conservadora em relação ao Iraque: 111.937 civis mortos somente no
Iraque.
Seja como for, a matemática da vingança é assustadora:
para cada vítima do 11 de setembro, algumas dezenas (na estatística mais
conservadora) ou centenas de pessoas perderam suas vidas. Em qualquer
um dos casos, a reação aos atentados supera de longe a prática adotada
pelo exército nazista nos territórios ocupados durante a Segunda Guerra
Mundial: executar dez civis para cada soldado alemão morto. Na madrugada
do dia 2 de maio, quando anunciou oficialmente que Osama Bin Laden
tinha sido morto, no Paquistão, por um comando especial dos Estados
Unidos, o presidente Barack Obama afirmou que a justiça tinha sido
feita. O conceito de justiça aplicado aqui torna a Lei do Talião um
instrumento conservadora. As palavras do presidente Obama foram as
seguintes:
"Foi feita justiça. Nesta noite, tenho condições de
dizer aos americanos e ao mundo que os Estados Unidos conduziram uma
operação que matou Osama Bin Laden, o líder da Al Qaeda e terrorista
responsável pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e
crianças."
O conceito de justiça usado por Obama autoriza,
portanto, a que iraquianos e afegãos lancem ataques contra os
responsáveis pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e
crianças. E provoquem outras milhares de mortes. E assim por diante até
que não haja mais ninguém para ser morto. A superação da Lei do Talião,
cabe lembrar, foi considerada um avanço civilizatório justamente por
colocar um fim neste ciclo perpétuo de morte e vingança. A ideia é que a
justiça tem que ser um pouco mais do que isso.
Nem tudo é dor e sofrimento
Mas a história dos dez anos do 11 de setembro não se resume a mortes,
dores e sofrimentos. Há a história dos lucros também. Gordos lucros. Uma
ótima crônica dessa história é o documentário “Iraque à venda. Os lucros da guerra”,
de Robert Greenwald (2006), que mostra como a invasão do Iraque deu
lugar à guerra mais privatizada da história: serviços de alimentação,
escritório, lavanderia, transporte, segurança privada, engenharia,
construção, logística, treinamento policial, vigilância aérea...a lista é
longa. O segundo maior contingente de soldados, após as tropas do
exército dos EUA, foi formado por 20 mil militares privados. Greenwald
baseia-se nas investigações realizadas pelo deputado Henry Waxman que
dirigiu uma Comissão de Investigação sobre o gasto público no Iraque.
Parte
dessa história é bem conhecida. A Halliburton, ligada ao então
vice-presidente Dick Cheney, recebeu cerca de US$ 13,6 bilhões para
“trabalhos de reconstrução e apoio às tropas. A Parsons ganhou US$ 5,3
bilhões em sérvios de engenharia e construção. A Dyn Corp. faturou US$
1,9 bilhões com o treinamento de policias. A Blackwater abocanhou US$ 21
milhões, somente com o serviço de segurança privada do então
“pró-Cônsul” dos EUA no Iraque, Paul Bremer. Essa lista também é extensa
e os números reais envolvidos nestes negócios até hoje não são bem
conhecidos. A indústria da “reconstrução” do Iraque foi alimentada com
muito sangue, de várias nacionalidades. Os soldados norte-americanos
entraram com sua quota. Até 1° de setembro deste ano, o número de
vítimas fatais entre os militares dos EUA é quase o dobro do de vítimas
do 11 de setembro: 4.474. Somando os soldados mortos no Afeganistão,
esse número chega a 6.200.
A matemática macabra envolvendo o 11
de setembro e os Estados Unidos manifesta-se mais uma vez quando
voltamos a 1973, quando Washington apoiou ativamente o golpe militar que
derrubou e assassinou o presidente do Chile, Salvador Allende. Em
agosto deste ano, o governo chileno anunciou uma nova estatística de
vítimas da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990): entre
vítimas de tortura, desaparecidos e mortos, 40 mil pessoas, 14 vezes
mais do que o número de vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001.
Relembrando as palavras do presidente Obama e seu peculiar conceito de
justiça, os chilenos estariam autorizados a caçar e matar os
responsáveis pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e
crianças.
Assim como no Iraque, nem tudo foi morte, dor e
sofrimento na ditadura chilena. Com a chancela da Casa Branca e a
inspiração do economista Milton Friedman e seus Chicago Boy’s, Pinochet
garantiu gordos lucros para seus aliados e para si mesmo também.
Investigadores internacionais revelaram, em 2004, que Pinochet
movimentava, desde 1994, contas secretas em bancos do exterior no valor
de até US$ 27 milhões. Segundo um relatório de uma comissão do Senado
dos EUA, divulgado em 2005, Pinochet manteve elos profundos com
organismos financeiros norte-americanos, como o Riggs Bank, uma
instituição de Washington, além de outras oito que operavam nos EUA e em
outros países. Segundo o mesmo relatório, o Riggs Bank e o Citigroup
mantiveram laços com o ditador chileno durante duas décadas pelo menos.
Pinochet, amigos e familiares mantiveram pelo menos US$ 9 milhões em
contas secretas nestes bancos.
Em 2006, o general Manuel
Contreras, que chefiou a Dina, polícia secreta chilena, durante a
ditadura, acusou Pinochet e o filho deste, Marco Antonio, de
envolvimento na produção clandestina de armas químicas e biológicas e no
tráfico de cocaína. Segundo Contreras, boa parte da fortuna de Pinochet
veio daí.
Liberdade, Justiça, Segurança: essas foram algumas das
principais palavras que justificaram essas políticas. O modelo imposto
por Pinochet no Chile era apontado como modelo para a América Latina. Os
Estados Unidos seguem se apresentando como guardiões da liberdade e da
democracia. E pessoas seguem sendo mortas diariamente no Iraque e no
Afeganistão para saciar uma sede que há muito tempo deixou de ser de
vingança.
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