terça-feira, 24 de agosto de 2010

MV Bill: novo astro da Malhação



Lá pelos idos de 94 ou 95, não lembro bem, estava eu no Tem Tudo de Madureira pra assistir o show do Racionais MCs. Era um domingo se não me engano. Foi o primeiro show deles que testemunhei no RJ. Fiquei hipnotizado com a performance dos caras. As viradas do KL Jay, a voz grave do Mano Brown. O ideal de contestação da ordem social materializou-se naquele palco. No meio da apresentação, o Brown deu uma pausa e convivou um desconhecido MC pra dar uma canja. Um cara sinistro, de cabeça raspada e bigode, cria da Cidade de Deus. De cara ele mandou mais ou menos assim: não sou MC (Mestre de Cerimônia), sou MV, mensageiro da verdade..., vou contar uma história que é a de muitos que vivem na periferia..., a história de Marquinho cabeção. Na hora eu estranhei a marra, mas atento a letra fiquei impressionado. O cara pegou o microfone e relatou, no estilo ritmo e poesia, a trajetória do garoto pobre que sonhava em ser jogador de futebol, mas acabou se perdendo em algum ponto entre a realidade da vida e a ilusão vendida nos programas de televisão. A ilusão da TV veio primeiro e acabou entrando para vida do crime.

O tempo passou e aquele desconhecido se tornou referência. É ele mesmo. O MV Bill. Músico, escritor, documentarista e recentemente ator. E resolveu estrear seu lado artista na Malhação, novela-teen da Rede Globo.

Já dizia o saudoso Raul Seixas, que é preferível ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Eu acredito nisso. Com o passar do tempo as coisas mudam. O contexto acaba nos obrigando a rever conceitos e acho que deve ter sido isso que aconteceu com o Bill. Não é fácil remar contra o status quo. Chega uma hora que é melhor se unir a quem detém o controle desse poderoso aparelho ideológico e ajudar alguns, do que continuar a dar soco em ponta de faca e não ajudar ninguém. É desse jeito.

MV Bill não é diferente. É ser humano e tem suas pretensões. Ninguém tem o direito de julgá-lo. Ele representa a Cidade de Deus, a Cufa, a cultura Hip Hop. Muita gente depende da sua visibilidade. A Malhação abrirá outras portas com certeza.

A única ressalva que deve ser feita é a seguinte: a representação do negro na TV não vai mudar com o MV Bill. Tudo bem muita coisa melhorou, mas ainda está longe de ser o ideal. Atores consagrados como Milton Gonçalves, Ruth de Souza, Antonio Pitanga, lutam por isso há anos mas o que ainda prevalece é o estereótipo do bandido, atleta, objeto sexual, empregado. Tomara que não seja essa a pretensão dele ao aceitar esse desafio.

A história do Bill não é nada parecida com a do Marquinho Cabeção. Ele contrariou a estatística. Não entrou pra vida do crime. A ilusão da TV veio depois...

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