segunda-feira, 3 de maio de 2010

Entrevista do jornalista boliviano Alfonso Gumucio-Dagron ao site do Globo Universidade



Quem pesquisa ou tem interesse pelo campo da comunicação e suas articulações com a Pedagogia e processo de ensino-aprendizagem, já deve ter ouvido falar do jornalista e cineasta boliviano Alfonso Gumucio-Dagron. Com vários artigos, livros, documentários e fotografias produzidos em projetos na América Latina, no Caribe, na África e na Ásia, Gumucio-Dagron é reconhecido por defender a idéia de que a comunicação pode contribuir substancialmente para a mudança da realidade social.

Já trabalhou em alguns organismos internacionais, como a UNICEF e UNESCO, na Fundação Rockefeller e na ONG Conservação Internacional. Foi um dos organizadores da coletânea Antologia da Comunicação para Mudança Social: leituras históricas e contemporâneas, livro com 1.400 páginas e 200 artigos de 150 autores contemporâneos de vários continentes, entre eles Paulo Freire.

Em agosto de 2009, Gumucio-Dagron esteve no Brasil para participar do VII Encontro Nacional da História da Mídia, organizado pela Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia (Alcar), em parceria com a Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). O encontro contou com a participação de cerca de 500 pesquisadores de todo o país.

Estou postando aqui a entrevista que ele concedeu ao site do Globo Universidade (http://migre.me/B9ht) onde falou sobre o início de sua carreira e abordou temas como mídias sociais, rádio e direito à comunicação.

Para quem está iniciando a estudar o assunto essa entrevista é uma boa introdução, pois também aborda a ampliação do conceito de comunicação, o poder transformador das novas tecnologias e como elas podem contribuir para o fortalecimento da cidadania, as diferenças entre informação e comunicação, a realidade ilusória da redes sociais na internet etc..
 
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Globo Universidade – Como foi a sua trajetória?


Alfonso Gumucio-Dagron - Comecei muito jovem como jornalista e estudei cinema na França. Quando regressei à Bolívia [em 1978], produzi vários documentários, mas me dei conta de que este é um país demasiado pequeno para que me dedicasse só ao cinema ou só ao jornalismo. O jornalismo me parecia muito limitado. Assim, comecei a trabalhar com um conceito de comunicação muito mais amplo e que incluía não só a mídia impressa, mas o cinema, a televisão, o vídeo, o rádio, ou seja, todas as mídias em uma perspectiva participativa. Durante muitos anos estive inserido em programas e projetos de comunicação para a mudança social em comunidades camponesas e de grupos de trabalhadores. Na Bolívia, trabalhei com sindicatos de mineradores, rádios comunitárias, capacitação, produção de formatos, educação e meios alternativos em comunicação.

GU – Como a tecnologia pode se transformar em um instrumento de cidadania?

AGD - Tenho escrito muito sobre este assunto e sempre uso o exemplo de uma faca. Uma faca pode servir para cortar uma carne deliciosa ou para assassinar alguém. O instrumento em si não carrega significados a priori e pode ser usado de maneiras muito diferentes. Esse exemplo serve como crítica ao fascínio exercido pelas novas tecnologias. Muita gente diz que as novas tecnologias vão resolver tudo automaticamente. Acesso à internet é a solução para tudo? Pode ser que sim, pode ser que não. Tudo depende do conteúdo. Por isso, temo que muitos dos programas e projetos de novas tecnologias aplicadas ao desenvolvimento poderão fracassar.

GU – Por quê?

AGD - As comunidades às quais estes projetos se destinam não estão envolvidas, não participam. Uma instituição vem, coloca os computadores e a conexão com a internet e diz: “é para vocês. Agora, vocês vão ser melhores, mais livres, mais educados, mais informados.” O problema é que não é bem assim que as coisas acontecem. Não é a primeira vez que estamos frente a este dilema das novas tecnologias. Quando a televisão apareceu havia o mesmo paradigma. Da mesma forma com o rádio. Sempre vai haver uma nova tecnologia e a tendência a sacralizar o instrumento, como se fosse um novo deus. Nos anos 1970, quando os grandes teóricos da comunicação para o desenvolvimento nos Estados Unidos – Everett Rogers e Wilbur Schramm – começaram a falar da difusão de informações, a tese era que o camponês e o trabalhador pobre do Terceiro Mundo não tinham informação. Se ele tivesse informação, sua vida seria melhor. Uma tese errada porque não levava em conta que o camponês e o operário são pobres por razões sócioeconômicas, por injustiças sociais, má distribuição da terra, falta de acesso ao crédito e discriminação. As causas sociais causam essa pobreza, portanto, para mudança social, não é suficiente apenas lhes dar mais informação.

GU – Qual a diferença entre informação e comunicação efetiva?

AGD - Há uma diferença entre informação e comunicação. Alguns teóricos acreditam que distribuindo informação, as pessoas vão mudar de atitude. Não é assim que ocorre. mas através de um diálogo que lhes permita reconhecer sua sociedade e suas necessidades. Vejamos, por exemplo, o problema global da Aids. Tem-se gastado milhões com disseminação de informação, mas a Aids segue avançando. Por quê? Porque este não é o tema. O tema é como as pessoas se apropriam da informação e a convertem em comunicação. Por exemplo, todas as prostitutas na África sabem que têm que usar preservativo. Por que não o fazem? Porque vem um cliente e lhes diz que paga o dobro se não usar preservativo. É um problema social, não de informação. Em 1985, o Brasil e o sul da África tinham quase a mesma população, mais ou menos a mesma incidência da doença e quase a mesma renda per capita. No Brasil, se conteve a pandemia e no sul da África, não.

GU – Qual a diferença nas duas abordagens?

AGD - No sul da África, o caminho foi somente o da informação de cima para baixo. No Brasil, houve muitas atividades de comunicação comunitária, de incentivo ao diálogo, com inovações, como o uso do teatro e outros recursos. Os resultados, em 20 anos, mostram isso.

GU – Como o senhor avalia as redes sociais na internet?

AGD - Tudo depende do valor de uso. Fala-se muito de redes sociais como o facebook e o twitter. As redes sociais podem ser muito úteis, mas também são uma forma de autismo, de dizer que fazemos parte de um mundo muito grande. Mas, afinal, que influência elas têm sobre a sociedade? É muito relativa. O facebook tem 250 milhões de inscritos. Cada um desses inscritos tem 20 a 25 amigos em média, mais do que na sua realidade cotidiana, porque alguns contatos virtuais são simplesmente contatos virtuais. Parece-me que há uma ilusão coletiva muito grande. Porém, penso que há formas de usar as novas tecnologias a partir de experiências aprendidas anteriormente. O problema é que as mídias sociais não vêm com memória. É necessário que haja memória histórica para entendermos, por exemplo, a experiência das rádios comunitárias na América Latina.  É uma experiência nos anos 1940 aplicada a uma ação coletiva de apropriação de um instrumento de comunicação.

GU – Atualmente, nas suas atividades de pesquisa, há alguma experiência comunitária concreta?

AGD - Sou muito ligado às rádios comunitárias de mineradores da Bolívia e da América Latina em geral. Tenho escrito bastante sobre essas rádios. Outro tema que me interessa agora é o uso das novas tecnologias, com as quais tenho me debruçado de maneira crítica.  Escrevi alguns textos nos quais afirmo que o funcionamento dessas tecnologias depende de algumas condições sociais.

GU – Quais são elas?

AGD – Uma delas é a participação. A geração de conteúdos locais é muito importante. Se uma dessas experiências não conseguir produzir conteúdos que tenham a ver com minha rua, com meu bairro, com minha cidade, então não há relevância. Outro fator é a pertinência linguística. Há línguas muito importantes, como o espanhol, que estão sub-representadas na internet. No mundo, há quase tantos falantes de espanhol, quanto de inglês, no entanto, há muito mais páginas em inglês do que em espanhol.

GU – Há outras condições?

AGD – Uma é a apropriação. Muitas vezes, em projetos comunitários, utiliza-se 5% ou 8% da capacidade de uma tecnologia, ou seja, valoriza-se excessivamente o meio, gerando custos muito elevados, ao invés da necessidade real das pessoas. É importante lembrar que as novas tecnologias têm uma sobrevida de poucos anos. Outra condição social é a constituição de redes, não só individuais e virtuais, mas comunitárias. Nessas redes, prevaleceria o intercâmbio entre as comunidades sobre temas de ação e de organização coletiva. Ainda há pouco disso na internet porque o acesso é individual. Por isso, demora muito constituir comunidades virtuais que realmente funcionem.

GU – Como o senhor distingue o conceito de direito à comunicação do conceito da liberdade de expressão?

AGD - Trabalho com o tema da participação, que me parece essencial, sobretudo agora que as grandes empresas de comunicação são hegemônicas. A sociedade precisa reivindicar o direito à comunicação. Há uma diferença muito grande entre a liberdade de expressão, que é a liberdade que nós temos como jornalistas, e o direito à comunicação, que é o direito de toda a sociedade ter os seus próprios meios.  Lamentavelmente, isso não acontece em muitos países que se denominam democracias. O Brasil, por exemplo. Neste país há pelo menos oito mil pedidos de licenças para rádios comunitárias negadas pela Anatel [Agência Nacional de Telecomunicações]. No entanto, todos os senadores têm sua rádio local. Além disso, mesmo as rádios comunitárias autorizadas enfrentam problemas de restrição de sinal e não atingem todo o território que poderiam. O Uruguai, ao contrário, aprovou nova legislação para meios de comunicação que diz que um terço de todas as frequências analógicas e digitais para rádio e para televisão tem que ser reservadas para fins comunitários. Esta lei foi aprovada pelo congresso uruguaio.

GU - Que experiências globais o senhor cita como exemplo na participação e apropriação das tecnologias?

AGD - A rádio é a tecnologia que as comunidades mais utilizam. O exemplo clássico são as rádios de mineradores na Bolívia. Essas rádios começaram a ser criadas nos anos 1948 e 1949, gerando uma importante consciência coletiva nos trabalhadores, que lhes permitiu lutar por suas reivindicações e por mudanças sociais.  Nos anos 1980, essas rádios foram importantes não só em nível local, mas também nacional. Quando os militares, por exemplo, capturaram e fecharam todas as rádios, jornais e canais de TV nas grandes cidades, as rádios dos mineradores foram as únicas que seguiram funcionando. Quando o exército entrou nos acampamentos, seu principal objetivo foi o de anular os sindicatos e as rádios, que seguiam transmitindo o que estava acontecendo no país. Muitos correspondentes estrangeiros utilizavam essas transmissões como fonte de suas reportagens. Enquanto a ditadura dizia que estava tudo tranquilo no país, as rádios comunitárias diziam que não, que havia luta, greves e manifestações contra o regime. Tenho um filme sobre o exemplo mais recente, o das Rádios para a Paz na zona do médio Rio Madalena, na Colômbia. Num projeto apoiado por instituições mistas do governo e empresas privadas, mais de 20 rádios comunitárias foram instituídas, com o desafio de criar comunicação em lugares de conflito, onde há a presença da guerrilha, do narcotráfico, de paramilitares e do exército.  As comunidades estão à mercê desses atores armados e todas elas vivem a violência, o medo e não podem se expressar politicamente de modo aberto. Como fazer rádio comunitária para construir a paz? Este é o desafio, que está sendo superado pouco a pouco. Sem falar muito abertamente de política, sem favorecer um ou outro lado, mas sim, falando da cultura, da necessidade de paz, de organização local e de outros temas que interessam a todos.

GU - Como o senhor avalia a contribuição de Paulo Freire?

AGD - Essencial. Creio que Paulo Freire não era plenamente consciente da grande influência que ia ter em todo o campo da comunicação. Ele concentrou-se mais na educação. No entanto, os princípios de participação que defendeu, em textos como Extensão e Comunicação, têm sido fundamentais para a mudança social. Não só na América Latina, mas em todo o mundo, devemos muitíssimo a Paulo Freire e a outros autores que têm trabalhado o tema da dependência.

GU - Na Bolívia do governo Evo Morales, como está a questão da comunicação comunitária?

AGD - Creio que uma boa oportunidade está sendo perdida. Esse governo, que se diz popular e democrático, devia ter aprovado alguma lei como a uruguaia, por exemplo, que permite que os meios populares tenham mais força e sejam legitimados. Porém, ao invés disso, criou mais de 50 emissoras do Estado em diferentes partes do país para transmitir as informações do governo. São rádios e TVs públicas, porém sem caráter comunitário, pois sua programação não é produzida pelas pessoas. São meios públicos que trazem informação oficial, não participativa. Minha esperança é que, com o tempo, a comunidade se aproprie. Acredito que neste momento estão dadas as condições para que prevaleça o direito à comunicação de todos os bolivianos. O problema é que há medo de que o direito à comunicação signifique opiniões que não estão de acordo com as do Estado.
 
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