Eu gosto muito de futebol. Fica difícil avaliar a relevância desse estudo para merecer um financiamento do CNPq. Sem querer desmerecer os esforço intelectual do pesquisadores, mas parece uma tentativa de conceder valor científico a uma conversa informal.
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O financiamento da masturbação sociológica pelo CNPq.
por Luis Nassif
Considero as ciências sociais uma das formas mais completas de
análise do desenvolvimento das sociedades, mais ampla que a economia,
mais abrangente que a história.
Mas a maneira como o ambiente econômico tolera a chamada “masturbação
sociológica” é fantástica. É hora de se começar a peneirar as teses
acadêmicas bancadas pelo CNPQ e fundação de amparo à pesquisa.
Tome-se o seguinte estudo, “As regras do futebol e o uso das
tecnologias de monitoramento”, de Jorge Ventura de Morais e Túlio Velho
Barreto, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Esse estudo está
sendo bancado pelo CNpQ, por um período que vai de 2011 a 2014.
Como informam os autores,
“neste trabalho, procuramos analisar o
debate no mundo futebolístico acerca do uso ou não de tecnologias para
dirimir dúvidas sobre lances considerados polêmicos tais como: se a
bola entrou ou não no gol, se foi pênalti ou não, se foi impedimento ou
não etc.”
Essa é a relevante tese dos autores. O que haveria em questão tão
banal – usar ou não a tecnologia – para instigar estudos sociológicos?
Muito mais coisa do que pode supor a vã sociologia.
Como bons acadêmicos, o trabalho relaciona as teses a favor do uso da tecnologia e as teses contrárias.
Defender a tecnologia é simples: ela acaba com os erros de arbitragem. Então, quais os argumentos contra a tecnologia?
“O argumento (contra) baseia-se na
ideia de que o futebol reflete ou espelha a própria vida. E que neste,
tal como na vida, ocorrem erros e que eles devem ser aceitos como parte
da própria dinâmica e emoção proporcionada por este esporte”.
Essa extraordinária inovação teórica, de que o esporte deve refletir
as imperfeições da vida, perpassa todo o trabalho. Inclusive com uma
visão absolutamente heterodoxa sobre o papel do “juiz ladrão”:
É relevante
“a manutenção do fator ‘erro humano’
como parte da vida e, portanto, a manutenção dos níveis de emoção
inerentes à atividade esportiva, no caso, o futebol”.
Aliás, a reação do público, xingando a mãe do juiz pode ser considerado um dos ingredientes da humanização do futebol:
“Acreditamos que o que está em jogo
neste debate pode ser relacionado à sugestão de Norbert Elias (Elias e
Dunning, 1966 e 1995) em termos da manutenção de níveis ótimos de
equilíbrio de tensões, quer dizer, de emoções, que permeiam o fascínio
que o futebol exerce sobre as multidões”.
Na sequência, uma formidável teorização sobre aspectos “fixos” e “elásticos” do futebol.
O aspecto fixo são as regras que disciplinam o jogo:
“A dimensão fixa e comum permite que o
jogo seja jogado como tal e não como uma disputa generalizada, sem
objetivos e desregulada”.
Já os aspectos “elásticos” decorrem do fato de que
“cada jogo é diferente do outro, o que é da natureza da própria definição do jogo”.
É apenas o início de um raciocínio muito mais elaborado:
“sem regras, não somente o futebol, mas todos os jogos esportivos não teriam se constituído ou mesmo mantido sua identidade”.
Após essa formidável descoberta, de que a identidade dos jogos é
definida pelo conjunto de regras que os compõem, o trabalho pula do
futebol para a vida e analisa a rigidez e a flexibilidade das regras na
formação social.
“Sahlins interpreta as “estruturas”
prescritivas como aquelas em que a ação é moldada pela regra, portanto, a
ação deve reproduzir a regra; já as “estruturas” performativas são
aquelas em que a regra deriva da ação e não o contrário, o que significa
sociedades mais dinâmicas”.
Depois desse sobrevoo sobre a natureza das sociedades, os autores
voltam de novo para o campo de futebol, analisando o impacto das
tecnologias sobre o esporte:
“A bola e o uniforme têm evoluído,
foram introduzidas caneleiras para todos os jogadores e luvas para os
goleiros. Eles têm modificado a dinâmica do futebol, mas também têm
afetado positivamente o físico dos jogadores”.
E volta de novo para o tema do “juiz ladrão”. Constatam com acuidade que
“a questão do erro humano no que
respeita à arbitragem de jogos é tema de conversa tanto de torcedores,
quanto de profissionais do futebol, incluindo os próprios jogadores”.
Não citam a fonte em que se basearam para tal constatação, mas deve ter demandado muito tempo de pesquisa.
E aí introduzem no trabalho uma nova categoria social: o torcedor com “expertise”.
“Quando o torcedor tem algum tipo de
expertise, há uma condenação da posição de perpetuar o erro humano e
comumente se faz uma proposta de introdução de tecnologias para dirimir
dúvidas”.
Para reforçar essa convicção, os autores trazem um exemplo que, em
sua opinião, se constitui em um marco na afirmação do torcedor com
“expertise”. É o depoimento de um médico espanhol, que eles foram buscar
na Gazeta do Povo:
“O Real marcou um gol que foi anulado
por impedimento. Os comentaristas da TV concordaram na hora [...] A
jogada foi repetida por câmeras localizadas em três diferentes ângulos, e
todas acusavam a posição irregular do jogador do Real. Mas em uma
quarta repetição em um novo ângulo deu para perceber com toda a clareza
que não havia impedimento [...] O gol, portanto, tinha sido mal anulado
pelo árbitro assistente. Neste dia começou a minha investigação, pois
pensei que poderia haver algo que impedia o olho humano de assinalar
corretamente o impedimento em certas ocasiões”.
Aí o médico sugeriu a abolição da lei do impedimento. Mas, com base
em suas pesquisas, os autores constataram que “tal posição (o fim da lei
do impedimento) não é pacífica”.
“Como veremos ao longo deste
trabalho, os dados que coletamos mostram, de forma mais específica, que
este debate se encontra também no coração do futebol brasileiro e
revelam, de acordo com a tipologia de Sahlins, a convivência de
diferentes concepções acerca do tópico”.
O financiamento do CNPQ
Todo esse trabalho é bancado pelo CNPQ. Os autores conseguiram que o financiamento abrangesse o período 2011-2014.
A proposta de pesquisa é a seguinte:
“O futebol é considerado o mais conhecido e amado de todos os
esportes no mundo. Isto tem sido amplamente atribuído à simplicidade de
suas regras, que permitem a todos jogá-lo como se deseja, a não ser pelo
cumprimento de umas poucas regras básicas (não toque a bola
intencionalmente com as mãos; para marcar um gol, chute a bola entre
dois marcos etc). No entanto, quando se trata de futebol profissional há
muita controvérsia sobre uma de suas principais regras: a Regra 11
Impedimento . Uma dessas controvérsias surgiu a partir de 2003 na
Europa, particularmente na Inglaterra onde o debate em torno desse
esclarecimento foi extremamente quente , quando o International Football
Association Board (IFAB) órgão normativo e responsável pelas mudanças
nas regras do futebol emitiu o que era para ser um esclarecimento do
significado do impedimento ativo e passivo . Porém, este não parece ter
sido o caso do Brasil, onde, ao que parece, as mudanças ou não foram
notadas ou foram assimiladas sem maiores disputas, como procurarei
detalhar quando da problematização do objeto. Já na Inglaterra, em 2003,
o nível de acordo sobre o significado das mudanças era muito baixo,
pois houve variadas opiniões sobre o que exatamente esses termos ativo e
passivo significam. À medida que as partidas eram disputadas, tornou-se
muito claro que as divergências aumentavam. Na nova interpretação, um
jogador deixou de ser punido por estar em posição de impedimento se ele
não estiver interferindo na jogada nem estiver ganhando vantagem de sua
posição. Como é próprio dos árbitros decidir se o jogador está
interferindo ou não em uma jogada específica, isso levou a disputas
entre treinadores, jornalistas esportivos, árbitros, autoridades do
futebol e os jogadores, no âmbito da Premier League inglesa, sobre o
significado de algumas táticas agora permitidas e praticadas sob a nova
interpretação. Além disso, havia divergências sobre se essas táticas
estavam em conformidade com o e".
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