publicado no Observatório da Imprensa em 12/09/2011 na edição 659
A reestruturação do mercado e os oligopólios globais
Por Valério Cruz Brittos e Jéssica M. G. Finger
As indústrias de comunicação vêm sofrendo profundas mudanças ao longo
das últimas décadas, em consonância com as transformações do
capitalismo. Novas maneiras de organizá-las vêm garantindo a este
mercado outra interface, caracterizada por uma economia de disputas e
atuações globais. Como consequência, cada vez mais este setor tem maior
participação de conglomerados, capazes de produzir sinergias, ao atuarem
em diversas mídias, capitalizados, em geral com capitais oriundos de
outras áreas de investimento.
Essas novas modalidades operacionais têm sido responsáveis, nas últimas
três décadas, por uma reestruturação das dinâmicas dos mercados,
estruturados sob a forma de oligopólios cada vez mais concentrados.
Trata-se de um problema que não chega a ser uma exceção, mas a classe de
estrutura de mercado inerente ao capitalismo, com sérias consequências
sobre o processo de decisão do consumidor e, no caso da comunicação, com
um efeito mais devastador: de restringir mais ainda o acesso da
diversidade à arena miditática.
As fusões & aquisições (F&A) – cujo agregado de recursos
econômicos contribuiu para a inovação em geral – propagaram-se a partir
da metade da década de 80. No caso dos Estados Unidos, em um só ano,
1985, a ABC foi vendida para a Capital Cities Communication, a NBC foi
comprada pela General Electric e Ted Turner quase assumiu o controle da
CBS. Durante este decênio e a primeira metade do seguinte, as atividades
de F&A ficaram restritas a mercados nacionais, não transpondo
barreiras fronteiriças.
News Corporation como exemplo
Contudo, a partir da segunda metade dos anos 1990, os acordos feitos
entre empresas de diferentes nacionalidades aumentaram de maneira
significativa, abrindo portas para o comércio e a concorrência global.
Tomando como exemplo as organizações de radiodifusão, apenas 4,3% dos
acordos feitos entre 1983 e 1987 foram realizados entre companhias de
nacionalidades diferentes. Já entre 1997 e 2005, esse número cresceu
para 16%. O mesmo destino seguiram as telecomunicações, assim como os
jornais e as agências de publicidade.
Diversos fatos possibilitaram o surgimento desses novos desenhos
empresariais, passíveis de resumo em três acontecimentos-chave. Os dois
primeiros envolvem diretamente os Estados Unidos: a) a decisão do
Federal Communications Commission (FCC), que em 1985 permitiu que uma
empresa passasse a possuir, por direito, 12 canais de televisão de uma
só vez; b) a Lei das Telecomunicações de 1996, que derrubou as barreiras
do mercado norte-americano para a atuação estrangeira, resultando em
uma enorme onda de F&A. O terceiro episódio vai além dos EUA e
refere-se aos acordos para o setor de telecomunicações propostos pela
Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1997, os quais também
permitiram abrir as portas para o livre comércio entre os países
membros.
Todos esses eventos, frutos de políticas neoliberais, resultaram na
privatização e desregulamentação do setor, possibilitando às empresas
tomar uma orientação política regida pelo e para o mercado, com o
primado pelo lucro, acima de tudo, sem grande tutela pública.
Fruto do crescente movimento de F&A ao redor do globo, a gigantesca
News Corporation, propriedade do empresário e magnata Rupert Murdoch,
serve como bom exemplo para se discutir os oligopólios mundiais e suas
consequências. A companhia tem sob seu domínio dezenas de jornais,
revistas, estúdios de TV e cinema, companhias de broadcasting,
televisões por satélite e sistemas de cabo, entre outros. Suas
principais atividades estão entre os três maiores países de língua
inglesa, Austrália, EUA e Inglaterra.
Império de oligopólios
O império de Murdoch – presente em toda Europa, na América Latina e
Ásia – mostra como as políticas de desregulamentação da FCC serviram ao
seu propósito de um “livre mercado”, mesmo que claramente apenas
indivíduos ou empresas com um alto poder aquisitivo tenham recursos para
entrar no jogo com alguma garantia de êxito. Afinal, mercado livre não
significa resultado positivo para a sociedade: ao contrário,
auto-regulado, fica restrito aos objetivos econômicos de seus
controladores, desligado de compromisso social.
Em 1985, com carta branca garantida pela nova regulação da FCC,
Murdoch, cidadão australiano naturalizado norte-americano, tomou
controle do estúdio de televisão estadunidense Fox TV que, por seus
esforços, foi lançada ao mercado como concorrente direto das outras três
estações televisivas do país, CBS, NBC e ABC. A iniciativa foi bem
sucedida e, após a aquisição de um conjunto de emissoras da Metromedia,
aprovada pela FCC em 1986, surgiu a Fox, desde então a quarta maior rede
de TV aberta dos EUA.
Entre centenas de aquisições que a News Corporation realizou, uma
tentativa recente vale ser reportada. No ano passado, Murdoch iniciou
uma odisseia para adquirir a BSkyB, empresa da qual já possuía 31,9% das
ações. Durante as negociações, que já duravam um ano, veio à tona um
escândalo, que partiu de um dos jornais de propriedade da News Corp, o News of the World.
Seus editores e jornalistas vinham praticando escuta ilegal e
grampeamento de telefones. O jornal fechou e o acordo não resistiu,
sendo Murdoch forçado a desistir.
Questões como essa trazem à tona o problema deste modelo empresarial
concentrado e concentrador. Suas ações e objetivos colocam-se acima das
constituições e da capacidade de governança dos países, afetando
inclusive a democracia, visto que o poder da mídia concentra-se, cada
vez mais, em menos mãos. Se, por um lado, prolifera a inovação
tecnológica e informacional, por outro cria-se um império de
oligopólios, onde tudo é possível, como em uma disputa de titãs, na qual
nem mesmo o Estado consegue intervir.
***
[Valério Cruz Brittos e Jéssica M. G. Finger são, respectivamente,
professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da
Comunicação da Unisinos e graduanda em Comunicação Social – Publicidade e
Propaganda na mesma instituição]
Nenhum comentário:
Postar um comentário