Transcultura: Gravadoras do Brasil e do exterior se especializam em lançamentos em fitas cassete
por Bruno Natal
O passado nem tão distante permite lembrar perfeitamente as fitas cassetes e todo o ritual que as envolvia: carregar o trambolhudo walkman pra cima e pra baixo, rebobinar as fitas, girando-as presas a uma caneta pra economizar pilha, o prazer de fazer uma seleção para dar de presente, e a glória que era fazer as músicas caberem de maneira exata em cada lado, sem sobrar nem faltar um minutinho sequer, tudo milimetricamente pensado. Numa época em que se pode carregar a discografia planetária dentro do bolso, é até difícil enxergar algo de positivo nessa trabalheira.
Acreditando no poder do romantismo e de olho no mercado analógico, puxado pelo ressurgimento do interesse do grande público pelos discos de vinil, selos estrangeiros e nacionais especializados em lançamentos no formato cassete vêm se espalhando. No Brasil, a Pug Records (http://pugrecords.com/), criada em Juiz de Fora pelos estudantes Amanda Dias, André Medeiros e Eduardo Vasconcelos, está operando desde janeiro deste ano.
Em acordo com a mídia que elegeram, sem a pressa dos tempos virtuais, a Pug esperou até formar um catálogo próprio mínimo antes de começar a divulgar os lançamentos próprios e os títulos que distribuem de selos estrangeiros especializados nas fitinhas, como a K Records e a Elephant 6.
Por enquanto foram dois lançamentos, "Eu, eu mesmo e os vários beijos cafeinados", da Coloração Desbotada, e "Everything must go", estreia da Top Surprise, banda do André. Na fila está o "Complete recordings", da banda Duplodeck, que acabou 2005 sem deixar nenhum material oficial. As tiragens são limitadas, e as cópias, feitas na munheca, uma a uma. Metade da produção é distribuída nos Estados Unidos, pela Lost Sound Tapes (http://www.lostsoundtapes.com/). Por aqui, as vendas ainda são modestas.
Sem medo de parecer esquizofrênica, a Pug Records também lança versões em MP3 de alta qualidade (ou a melhor possível) e comemora os mais de três mil downloads de seus lançamentos, a maior parte feita através de blogs de MP3, os principais parceiros na divulgação.
O público das fitinhas é formado por colecionadores, jovens que se identificam com o perfil do selo e alguns europeus que fazem questão de adquirir a cópia física, mesmo tendo que importar uma fita do Brasil.
Ao mirar nos internautas que baixam MP3 e ainda valorizam tiragens limitadas e cópias artesanais e estão dispostos a pagar R$ 7 por um produto exclusivo, a escolha pelas fitas cassetes funcionou. Primeiro porque chama a atenção, trazendo uma visibilidade para a Pug Records que de outra maneira levaria mais tempo. O diferencial também facilitou os acordos de distribuição no exterior.
Tem também a questão do custo. Enquanto os CDs exigem uma prensagem alta para valer a pena, os vinis são muito caros e CD-Rs não valem quase nada no mercado, as fitas cassetes podem ser produzidas de maneira caseira, de acordo com a necessidade, além de complementar a estética do selo, afeito aos sons lo-fi, gravados em quatro canais, com microfonias e ruídos vazando.
Uma das maiores dificuldades do selo, quem diria, é conseguir fitas virgens para fazer as gravações. Os cassetes não são mais produzidos no Brasil e têm que ser importados.
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