Comparado a Hendrix, Flying Lotus flutua entre jazz, eletrônica e hip hop em sua 'ópera espacial'
por Carlos Albuquerque
Lótus é uma planta de pétalas brancas, azuis, rosas e violetas. É também uma posição de meditação na ioga. Agora imagine tudo isso voando bem alto: sua mente e as pétalas coloridas. Para esse exercício de psicodelia zen ficar perfeito, feche os olhos, controle a respiração, aproxime "Cosmogramma" suavemente dos seus ouvidos e aproveite ao máximo a experiência.
E, antes de pedir um antidoping para o autor da crítica, vale lembrar que "Cosmogramma" - sem previsão de aterrisagem no Brasil - foi descrito pelo seu criador, o todo-poderoso Flying Lotus, como uma "ópera espacial". Clichês à parte - quantas vezes um disco já não foi descrito como "uma viagem"? - "Cosmogramma", de fato, é capaz de levar a lugares novos e pouco habitados do planeta Música. Basta apertar um "play".
Méritos para o autor, Flying Lotus, um jovem aristocrata (26 anos) que cresceu ouvindo os conselhos (e sons) da matriarca da família, Alice Coltrane, sua tia e - sim, ela mesma - viúva de John Coltrane. Nas ruas de Los Angeles, onde foi criado e vive até hoje, Steven Ellison (nome por trás do disfarce) se alimentou de um outro elemento: o hip hop de Dr. Dre e companhia. E, em São Francisco, onde estudou arte, ele ganhou o incentivo final para fazer simplesmente o que viesse à sua cabeça.
E descobrir o que faz a cabeça de Flying Lotus tem se revelado uma das coisas mais excitantes do mundo. Em tempos efêmeros, seu segundo disco, o magistral "Los Angeles", lançado no final de 2008, podia ter sido o clímax dessa jornada, com sua impressionante sinfonia de beats, ruídos e texturas, uma pintura de música que fez a renomada radialista da BBC Mary Anne Hobbs desprezar as meias palavras e dizer que Flying Lotus era o Jimi Hendrix de sua geração.
Driblando com bom humor a pesada comparação ("Espero não sufocar no meu vômito", declarou à "Mixmag"), Flying Lotus conseguiu o que parecia impossível: superar a grandiosidade de "Los Angeles" com "Cosmogramma".
A palavra chave para entrar no novo disco é transcendência. Não é papo cabeça. É que Flying Lotus realmente transcende estilos (hip hop, jazz, eletrônica, soul) para criar um som que não parece com nenhum outro. Transcende também Thom Yorke, que aparece em "And the world laughs with you" não como o cara do Radiohead e sim como uma voz a serviço da arquitetura musical de Flying Lotus.
Por dentro de suas densas (mas nunca herméticas) camadas, o disco traz imersas também as participações especiais da harpista Rebekah Raff, do superbaixista Thundercat (na encantadora "Mmmhmm"), da vocalista Laura Darlington e do arranjador Miguel Atwood-Ferguson.
Assim, para ser bem aproveitado, "Cosmogramma" pede várias audições nas quais as portas para a mente de Flying Lotus parecem se abrir como uma flor se tornando adulta. Mas se quiser um refresco durante a viagem, passe por "Do the right plane", com sua irresistível levada disco, e simplesmente dance. Com gravidade zero, isso deve ser muito divertido.

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