sábado, 22 de maio de 2010

DJ Nepal o coringa da noite



DJ Nepal assiste de camarote a trocas de gerações e tendências há 18 anos, mas se mantém no topo

por Carlos Albuquerque

O pior pesadelo do DJ Nepal não é alguém chegar à cabine de som e pedir "aquela" da Lady Gaga. Seu pior pesadelo é perder o computador. Por isso, ele abraça o laptop no táxi, após tocar no bar Meza, no Humaitá, como se fosse uma pessoa muito querida.

- É o meu companheiro de trabalho. Quase todas as minhas músicas estão aqui - diz ele, enquanto ajeita os quase dois metros (na verdade, 1,92m) que justificam o apelido, no banco de trás do carro.

Nepal, 37, é um DJ em constante movimento. Há quase 18 anos, ele circula nas pistas de dança e arredores sem perder o passo ou o ritmo.
- Ele está no seu melhor momento. É capaz de ir do pop ao eletrônico sem perder a classe - elogia o produtor de moda José Camarano.

Trata-se de um caso raro no meio: um profissional que assistiu de camarote - muitas vezes VIP - à troca de gerações e tendências e se manteve no topo. Graças ao seu som eclético-com-coerência, de grooves irresistíveis, Nepal é o coringa mais adorado da cidade, capaz de tocar nos mais diferentes eventos - festas, desfiles, lounges, shows - sem sambar (gíria dos DJs para aquele que erra uma mixagem). Hoje, por exemplo, ele participa da festa I Love Pop, em Búzios.

- O grande mérito do Nepal é que ele consegue ser eclético com uma grande qualidade. Ele transita por vários estilos musicais de forma elegante - diz o produtor Pedro Buarque de Holanda, sócio da Conspiração Filmes, que comemorou seu aniversário e o do artista plástico Vik Muniz, em dezembro, numa festa no MAM, embalada pelos sons de Nepal.

O táxi estaciona à porta do Hotel Fasano, em Ipanema. Nepal desce e é recebido pela atriz Rafaela Mandelli, aniver$da noite. Na pista do Londra, Luana Piovanni e Bruno Mazzeo são alguns dos que dançam a sequência de clássicos disco de Nepal, nos embalos de uma terça à noite.

- O mais importante nessa transição de públicos é, primeiro, saber onde eu estou. E, depois, olhar para as pessoas, ver como reagem às músicas e tentar seguir um caminho - ele explica.

Foram necessárias muitas BPMs (batidas por minuto) até que Nepal tivesse essa apurada visão da pista. No começo, em 1993, nas festas de amigos, em Niterói, e depois na Zoeira, pioneira noite de hip hop no Rio, tudo era bem diferente:

- Circulava com uma galera de Niterói, que andava de skate e ouvia hip hop. Eram caras como o Black Alien, Marechal e Castro. Depois, todo mundo foi para a Zoeira, onde eu comecei a tocar de fato, mesmo sem saber direito o que estava fazendo. Entre erros e acertos, aprendi a tocar em público.

Disco com a banda Bife vem aí

Foi na Zoeira que Nepal conheceu outro DJ, John Woo, com quem acabaria fundando o Apavoramento, hoje um misto de equipe de som, empresa de design e produtora de eventos, programas de televisão, videoclipes...

- Isso foi por volta de 1997. Nossa ideia era fazer festas e produzir uma rádio na internet, algo pioneiro para a época. Só que acabamos virando algo muito maior - conta ele sobre o coletivo com o qual chegou a se apresentar no TIM Festival, em 2003, e também em festivais em Londres e Barcelona.

Para Nepal - que teve residências em casas noturnas do Rio (Bunker) e de São Paulo (Amp Galaxy) -, o momento da virada se deu quando aposentou os discos de vinil e passou a tocar usando o laptop:

- Se eu pudesse, ainda usaria vinil, mas no laptop posso levar um universo muito maior de músicas. Isso me permite passear de um estilo para o outro com facilidade. Eu não teria como carregar todos os meus discos para uma festa.

Fora das pistas, Nepal tem projetos paralelos, como o grupo Neskal (com o produtor Fiskal) e, mais recentemente, a banda Bife (com os músicos Fábio Santana e Plínio Profeta), que mistura balanços dos anos 70 com timbres eletrônicos.

- Com o Neskal, chegamos a lançar um single no exterior, em 2006, mas as coisas estão meio paradas. Mas o Bife vai bem. Já temos material para gravar um disco, o que deve rolar em breve - adianta.

É sábado à noite (ou melhor, domingo de manhã). Nepal encerra com grooves de ouro a festa Pimp, na Pista 3, ao lado dos novatos DJs Yugo e Zeca Veloso. E ganha aplausos.

- O Nepal é o DJ com o qual mais me identifico no Rio - diz Yugo. - Ele ousa sem culpas.

Festas, shows e desfiles (Nepal assina há tempos as trilhas da Aüslander) quase sempre são programas noturnos. Ser pai de um menino de 7 anos, nem tanto:

- Eu tenho que me desdobrar, mas dá para levar na boa. Vou buscar na escola, vou nos aniversários dos amigos, faço todos os programas tradicionais - diz sobre o relacionamento com o filho, Luca, com quem "divide" um apartamento em Laranjeiras. - Claro que para isso tenho o supersuporte da Natália, que é a mãe dele, e de uma ajudante multiuso.

Nepal confessa que, nas viagens, não se sentia bem ao preencher a ficha dos hotéis e colocar DJ como profissão:

- Eu hesitava. Mas hoje, quando vou às reuniões do colégio do meu filho e digo que sou DJ, todo mundo respeita e acha legal.

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